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De acordo com recente estudo realizado pela PwC, o comando de mais de 350 mil empresas familiares no mundo deverá mudar de mãos nos próximos anos. Segundo a pesquisa, 57% planejam transferir o comando para a próxima geração de suas famílias; 40% nos próximos cinco anos. “Mas apenas 15% delas têm um plano de sucessão robusto, formalizado e já comunicado e 30% ainda precisam envolver a próxima geração nesse planejamento”, diz Peter Englisch, consultor da PwC dedicado a estudar empresas familiares.[1]
No Brasil, é alta a concentração de empresas nas mãos de famílias, as quais abrangem todos os tipos de sociedades, das mais variadas magnitudes. Envolvem desde uma pequena borracharia em que trabalham somente pai e filho até grandes conglomerados multinacionais. Entre esses extremos, encontram-se os mais variados modelos de negócio, e por trás destas estruturas as mais variadas composições familiares, cada qual com suas peculiaridades, suas fragilidades e suas maneiras de tocarem os negócios.
Todos estes casos representam, segundo o IBGE e o SEBRAE, aproximadamente 90 % do total de todas as empresas brasileiras[2]. Assim, pode-se dizer que existe uma ou mais famílias por trás de nove em cada dez empresas em funcionamento no Brasil.
Infelizmente, nem todos os casos de empreendedorismo familiar conseguem se perpetuar ao longo das gerações. A velha premissa do “pai rico, filho nobre, neto pobre” parece assombrar à muitas famílias empresárias, que assistem seus impérios ruírem por falta de herdeiros preparados para comandarem os negócios, os quais optam por gastar toda a fortuna herdada de seus antepassados.
De acordo com um estudo feito em 2010 pela PwC, a nível mundial, 36 % das empresas familiares chegam à segunda geração, 19 % à terceira, 7 % à quarta, e apenas 5 % à quinta[3]. Ademais, um estudo feito pelo consultor Renato Bernhoeft, da Höft Consultoria, concluiu que “conflitos societários são a principal causa do desaparecimento de 70 % das sociedades no Brasil”.[4]
Existe um leque de situações preocupantes e oriundas da relação familiar existente entre os sócios que pode prejudicar a empresa. Dentre alguns exemplos, podemos destacar a ausência de previsões dentro da empresa que regulem a entrada de novos sócios herdeiros, a participação desses na gestão e os requisitos mínimos necessários para ocupação de cargos importantes. Sobre entrada de novos sócios, “um estudo da Fundação Dom Cabral mostra que a chance de uma startup sucumbir aumenta 1,24 vez sempre que um novo sócio passa a trabalhar em período integral no investimento”[5].
A não permissão ou limitação da participação dos cônjuges é temática muitas vezes não discutida dentro de uma empresa familiar. A ausência de profissionalismo, o nepotismo e o direito a emprego pela simples razão de pertencer à família são cenários corriqueiros dentro dessas sociedades. Some-se a isso exemplos de centralização de poder na tomada de decisões, que geram, muitas vezes, sensação de falta de representatividade àqueles ramos minoritários da família. Se problemas como os elencados não forem combatidos com as medidas adequadas, dificilmente a empresa se manterá saudável com o passar das gerações.
A prosperidade de uma empresa envolve diversos desafios, os quais aumentam significativamente quando seus proprietários são membros de uma mesma família, pois além de zelar pela boa condução dos negócios, é preciso preservar a harmonia e a paz nas relações familiares. A adoção de boas práticas de governança corporativa, aliadas ao exercício de uma cultura que preze pelo respeito mútuo entre os familiares constituem fatores determinantes à longevidade dos negócios e à conservação de laços familiares fortes. Deve haver, ainda, a valorização da história da família e a compreensão clara do papel de seus membros diante da empresa.
São diversas as práticas de governança interessantes à organização e sucessão das empresas familiares, como por exemplo acordo de acionistas/quotistas, testamentos, códigos de ética, protocolos familiares, conselhos familiares e de administração. Todavia, a escolha por quais adotar deve ser sempre precedida de aprofundada análise das necessidades da empresa, das intenções e vontades dos seus proprietários, bem como do perfil e qualificação dos herdeiros/sucessores, além do vínculo que esses possuem com os negócios. Só assim, torna-se possível optar por métodos realmente eficazes para organizar a sucessão da administração da empresa e preservar uma relação de harmonia entre negócios e família.
[1] https://www.valor.com.br/empresas/5974625/comando-de-350-mil-empresas-familiares-vai-mudar-de-maos
[2]http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI266475,91041-Sucessao+em+empresas+familiares
[3] http://ibefsp.com.br/publicacoes/por-que-tao-poucas-empresas-familiares-conseguem-chegar-a-segunda-geracao/https:/www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI266475,91041-Sucessao+em+empresas+familiares
[4] RYDLEWSKI, Carlos. Quando os sócios sobem ao ringue. Valor Econômico, São Paulo, 03 agosto 2018. Caderno Eu & fim de semana
[5] RYDLEWSKI, Carlos. op. cit.
*Foto: Andrey Popov. Getty Images/iStockphoto